CLARIDADES DO SUL
GOMES LEAL
CLARIDADES DO SUL
LISBOA BRAZ PINHEIRO--EDITOR Praça d'Alegria 73 1875
PRIMEIRA PARTE
INSPIRAÇÕES DO SOL
HYMNO AO SOL
Vous prêtres! qui murmurez, vous portez ses signes sur tout votre corps: «votre tonsure» est le disque du «soleil,» votre «étole» est son zodiaque, vos «chapelets» sont l'embléme des astres et des planétes.
VOLNEY (LES RUINES)
Eu te saudo ó Sol, bello astro amigo! (Tão pontual ha tantos centos d'annos) Mais reluzente que um broquel antigo, Mais dourado que sceptros de tyranos; Avé, heroica luz! viva e sonora, Vestindo o mundo, emquanto aos ceus erguidas, As florestas extensas dão gemidos, E o duro mar se chora!
Eu te saudo, ó astro das batalhas!... Por que atravez das cruas dissenções, Douras o pó que se ergue das mortalhas. E levantas os nossos corações! E por isso, ainda hoje, e eternamente, Os romanticos te hão de a ti saudar, --E os tristes sempre irão, á luz poente, Ver-te morrer no mar!
Tu és a Voz; a Côr; as Harmonias Accordam com as tuas claridades; És quem benze as aldeias e as cidades, E quem fases cantar as cotovias; És quem inspira extranhas theorias, És forte, são, consolador e bom! Tem a lua silencios e elegias; --Mas tu a Côr e o Som!
Eu te saudo, ó astro dos guerreiros!... Eterno confessôr de madrigaes, Que desgellas os densos nevoeiros, Que alegras as sonoras capitaes; Que dás valor nos campos marciaes, E força e amor aos aldeões trigueiros, E que incitas os tigres carniceiros A beber nos caudaes!
Desde a Chaldea ás tristes solidões, Tens tido cultos, templos levantados, E velhos ritos barbaros sagrados, E alegres, sensuaes religiões!... Tu foste Mithras, nome cabalistico, Baal, Agni, Apollo (invocações) --E hoje Christo--teu nome occulto e mystico-- Fere inda os corações!
Quem contará, ó luz, tuas bondades?... E o amor no qual o coração abrasas, E as tuas funeraes solemnidades Á ideal palpitação das azas?... Quem nos livra das flexas do pecado? Quem faz na intima terra o diamante? Quem gera o monstro, a pomba, o lyrio amado, E a idea extravagante?
Ave! pois, asto caro dos valentes... Da Força, Vida, Gloria, da Paixão, A flexa d'ouro aos corações ardentes, Astro amigo das lutas e da Acção! Ave! e em dias crús d'expiação Vae, e beija--nas hervas relusentes-- Os que morrem, vencidos combatentes, --A espada inda na mão!
*Á JANELLA DO OCCIDENTE*
O mundo oscilla (Luthero)
Os deuses ou são mortos ou caídos, Quaes duros aldeões dormindo as sestas, Ou andam pelos astros perseguidos Chorando os velhos tempos das florestas,
Os reis ressonam nas devassas festas: Já os fructos do Mal estão crescidos: Ó Sol, ha muito que tu já nos crestas! E aos nossos ais o Ceu não tem ouvidos!
Ha muito já que o Olympo está vazio, E no seio d'um astro immenso e frio É morto o Deus do Testamento Velho.
Apenas sobre o mundo eterno e afflicto, Procura Fausto o x do infinito, E Satan dorme em cima do Evangelho.
*OS SANTOS*
Les saints arrachaient leurs auréoles. (Dubois)
Viam-nos caminhar, exilados da luz, As grandes povoações, as rochas, as paisagens. E os corvos, os fieis amantes das carnagens, Estos magros heroes, paladins de Jesus.
Andavam rotos, vis, os pés chagados, nús. Finavam-se a rezar ante as santas imagens, E ouviam-nos bradar no meio das folhagens: --Ó arvores em flor! vós sois esquife e cruz!
Onde estaes hoje vós? nas grutas dos planetas, Inda hoje rezaes, ó pallidos ascetas, Luzes vivas da Lei! martyres solitarios?
Na terra não; que ha muito a Materia nos nutre, E nem no Ceu talvez;--no entanto o negro abutre Tem saudades de vós nas cristas dos calvarios!
*D. QUICHOTE*
A Luciano Cordeiro
O que é isto?
Nos tempos medivaes dos campeões andantes, E das balladas como a do bom rei de Thule, Andava D. Quichote em busca de gigantes, Magro, tristonho, ideal, crente Fausto do Sul.
Batalhador juiz da Virtude e do Crime, Defendendo o opprimido, a mulher, o ancião, Corria o mundo assim, ridiculo e sublime, Em seu magro corcel, sob arnez de cartão.
Cheio de tradições, o velho mundo absorto, Da banda do meio dia, ouvia o seu tropel, E como insectos vis sobre um cavallo morto, Riam as multidões do ultimo fiel.
Ia triste a scismar, com a alma abatida, Nos caminhos do mal rasgando as illusões, Magro Fausto do Sul, buscando a Margarida, Cheio de apupos vis, d'escarneos e irrisões.
Vinha de batalhar espancado e abatido, Cheio de contusões e lodos d'atoleiros, E ao pé montando um burro, e o escudo já partido, Sancho Pança a Materia, e o rei dos escudeiros!
Vinha sereno e grave, escarnecido e exangue, Emmagrecido e caalmo em meio dos estorvos, --Vinham ladrar-lhe os cães, e pressentindo sangue, Grasnavam-lhe em redor bandos negros de corvos.
Sancho Pança fiel, vasculhava a escarcella, E ascultava a borracha emmudecida emfim; Em quanto o Heroe scismava, inclinado na sella, Na conquista ideal do escudo de Membrin.
Paravam aldeões, lavradores crestados; Vinham á porta as mães, fiando o linho fino; E os magros charlatães viam passar, pasmados, Na sombra d'um cavallo o extremo paladino.
Dançavam os truões; as sujas enxurradas Com a lodosa voz, perguntavam: Que é isto?-- Satan n'um corucheu, dizia ás gargalhadas: --Ó campeão do Bem! ó victima do Christo!
*O PUBLICANO*
Ils erraient sales et immonds, et avaient des dévotions hypocrites (Dubois)
Um graõ doutor da Lei dizia ao publicano, Junto ao atrio do templo, em tempos da Judea, Tambem tu vens orar, publicano sereia, A tua casa ardeu, ou deu na vinha o damno?
Jejuas tu agora e resas todo o anno, Tu que levas o pobre e o orphão á cadeia, Que tiras á viuvez o pão, o leito, e a teia, Tu que és avaro e vil, pagão como um Romano?!
Que não resas como eu, que nunca vi desfeito Dos compridos jejuns, nem macerar o peito; E que hospedas Satan, como o antigo Saul!
Não vês como estou sempre erguendo ao Ceu os braços? --O publicano então, disse, olhando os espaços: «Tambem os poços são voltados para o Azul!»
*A LYRA DE NERO*
Nos seus jardins pagãos, entre archotes humanos, Na lyra de marfim sobre as cordas douradas, Nero vinha cantar ás noutes estrelladas, Elegias d'amor e canticos thebanos.
Essa lyra do Mal que ouviram os romanos, Que cantou entre o fogo, as casas abrazadas, E os lutos, os truões, as ceias depravadas, Que mysterios não viu, medonhos e profanos!
E, no emtanto, apesar da sua historia triste, Se os tempos tem corrido, a Lyra ainda existe Do devasso real, do lyrico histrião...
Seu canto inda nos prende e ouvimol-o sem susto, E, ó Terror! ó Terror! eu que amo o Forte e o Justo, --Ouço-o ás vezes tambem, dentro do coração!
*MYSTICISMO HUMANO*
Sunt lacrimae rerum... (Virgilio)
A alma é como a noute escura, immensa e azul, Tem o vago, o sinistro, e os canticos do sul, Como os cantos d'amor serenos das ceifeiras Que cantam ao luar, á noute pelas eiras... Ás vezes vem a nevoa á alma satisfeita, E cae sombria, vaga, e meuda e desfeita... E como a folha morta em lagos somnolentos As nossas illusões vão-se nos desalentos!
Tem um poder immenso as Cousas na tristeza! Homem! conheces tu o que é a natureza?... --É tudo o que nos cerca--é o azul, o escuro, É o cypreste esguio, a planta, o cedro duro, A folha, o tronco a flor, os ramos friorentos, É a floresta espessa esguedelhada aos ventos; Não entra o vicio aqui com beijos dissolutos, Nem as lendas do mal, nem os choros dos lutos!...
--E os que viram passar serenos os seus dias... E curvados se vão, ás longas ventanias, Cheio o peito de sol, atravez das florestas, Á calma do meio dia... e dormiam as sestas, Tranquillos sobre a eira, entre as hervas nas leivas... Vão cansados depois, entre os ramos e as seivas, Outra vez sob o Sol--a sua eterna crença!-- Em fructos resurgir á natureza immensa, E, aos beijos do luar, descansarem felizes, Da bem amada ao pé, no meio das raizes!
Morrer é livramento! oh deve saber bem Sentir-se dilatar na Natureza mãe! Ser tronco, ramo ou flor, nuvem, herva ou alfombra, A rosa que perfuma, a arvore que dá sombra! Estremecer na encosta ás nocturnas geadas, E recortar o azul das noutes constelladas!
Oh pelo claro azul d'essas noites serenas, Que o segador trigueiro entôa as cantilenas, Tristes como a lua e o espinho dos martyrios, E que atravez do azul parecem cair lyrios!... Quando a brisa levanta as folhas indiscretas, Noivam os rouxinoes e se abrem as violetas... E a Natureza tem como um sabor de beijos, Que obriga a soluçar a alma de desejos!...
Que segredos dirão nas brisas mensageiras, Á doçura da lua, a flor das larangeiras, O lyrio, a madresilva, os jasmins vacillantes, Que foram já, talvez, seios fortes e amantes, E que hoje' á branca luz dos myrthos sideraes, Conversam sobre o amor e os gosos ideaes Do tempo, que a fallar corriam breve as horas, Que seus olhos leaes tinham a côr d'amoras, E debaixo do Ceu teciam longas danças, Ao pé da amante meiga e de compridas tranças!...
No lago somnolento a flor do nenuphar Talvez é um coração que abre para chorar! O lyrio um seio bom,--e as violetas curvadas São os olhos talvez das doces bem amadas!...
Feliz o semeador que vive entre os arados, O campo, os lentos bois, longe dos povoados, Entre os rijos irmãos humildes e trigueiros, Que vivem sob o sol, á chuva, aos nevoeiros, E quando á noute finda os suarentos trabalhos, Vem a doce mulher buscal-o nos atalhos, Cujo olhar como a lua é tranquillo e consola, E descanta chorando á noute na viola!...
